QUANDO A VITÓRIA TRAZ DESÂNIMO
QUANDO A VITÓRIA TRAZ DESÂNIMO
“Quando a vitória traz desânimo.” Eu ouvi essa frase e fiquei pensando nela, que sentido ela tem e se é realidade ou não. E algumas vitórias me fizeram refletir profundamente. Um pai paga caro pela faculdade de um filho; investe alto para que ele possa ter um futuro melhor e, ao se formar, ele não consegue emprego naquela área desejada. A vitória pode se transformar em desânimo e derrota se não for encarada a realidade que o cerca no instante. Muitos, então, entram em um processo de tristeza profunda e a depressão encontra espaço para a derrota.
Um casal que se casa na expectativa de uma família numerosa, se prepara para isso, comprando uma grande casa, um carro tamanho família. Em poucos anos descobre que esse sonho não pode ser realizado porque a esposa não segura gravidez. E o que até então era vitória também pode ser transformado em derrota, e o desânimo toma conta desse casal que não consegue olhar para outro ângulo e ver outra forma de constituírem a família tão desejada. Alguns, nessa procura desenfreada por filhos, desfazem seus casamentos por não darem conta de entender tamanhas frustrações aparentes.
O tão sonhado carro que lutamos uma vida para conquistar pode ser a frustração de um casal que não sabe o valor correto de uma conquista e valoriza mais o objeto do que a conquista. A esposa, então, olha para o carro e diz: queria que fosse eu esse caro, ele só tem olhos para o carro e não para mim. O desânimo pode tomar a mente daquela mulher e ela passar a enxergar a vinda do carro como derrota e não como vitória. Pois não sabe esperar o tempo da paixão masculina pelo carro passar e ele enxergar que a conquista vale mais do que o apego emocional ao carro e que sua família também precisa participar destes momentos, não só ele.
Outro meio de desânimo através da vitória é a do cristão que vive uma luta constante, e começa a ser próspero pela sua comunhão com Cristo e por sua fidelidade a Deus e, de repente, não vai mais à igreja porque não tem tempo para ela; não exerce mais nenhuma função na mesma porque não dá tempo; está o tempo todo envolvido em alguma atividade extra-familiar e trabalho. A igreja passa a se tornar um lugar ultrapassado para suas atuais posses e posição social. Os antigos irmãos de batalha se tornam pessoas desinteressantes, tem outros melhores de assuntos para conversar. Até que a vitória se transforma em solidão espiritual e a realidade bate novamente à sua porta.
O pastor Jorge Linhares conta um caso que é interessante e que disse ser verídico: um membro de sua comunidade era um homem frequente aos trabalhos da igreja, o ajudava sempre que preciso até o dia em que ele se tornou um homem rico e poderoso em sua área. Ele, que andava em um Fiat 147, estava em importados e viagens internacionais. A partir daí, a igreja nunca mais pôde contar com ele, não era mais diácono, pois a posição não combinava com sua nova vida. Já não era mais frequente; agora tudo tinha defeito. Ele, então, veio à falência em pouco tempo por não saber administrar o que havia ganhado. Qual não foi a surpresa! Lá estava ele, de novo, servindo na igreja. Mas, como seu ramo é de um volume enorme de dinheiro, levantou-se novamente e está fora da igreja outra vez. Não mais aparece e, se procurado, tem enormes defeitos a colocar na igreja e nos irmãos de comunidade. Não sabe fazer da vitória a sua vitória e sim um meio de desânimo espiritual.
Alguns, ao alcançarem um volume grande de vitórias, abandonam a família que tanto lutou com ele ou ela.
Eu fico pensando: alguns de nós não podemos ter vitórias. Mas precisaríamos aprender, porque não podemos, depois de uma luta, alcançar a vitória e nos tornarmos derrotados em família, em comunhão e amor ao próximo.
A vitória tem que nos trazer alegrias e não derrotas anunciadas. Se não sabemos ser vencedores, como caminharemos? De derrotas em derrotas até encontrar a felicidade na derrota? Não podemos ser assim. Então, precisamos conhecer a vitória como um caminho para júbilo e não discórdia familiar. Se a vitória tem trazido desânimo à sua vida, é preciso voltar ao começo e reavaliar qual sua atitude diante dela, se de egoísmo ou de frustração. Alguns só sabem lutar e não aproveitam a conquista. Mas ainda assim vale a pena lutar ara aprender a viver a alegria da conquista. Ao conquistar a pessoa amada, valorizá-la; não deixá-la de lado como algo já resolvido.
Assim, chego à conclusão de que a conquista não é algo impossível; difícil é saber fazer dela um dispositivo de felicidade e mantê-la como alvo diário. Seguimos nossas vidas entre derrotas e conquistas, frustrações e abundância.
Silvia Letícia Carrijo de Azevedo Sá


